Segunda-feira, 25 Maio, 2026
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    Tendências digitais estão a transformar a forma como lemos e o que lemos

    O crescimento do BookTok, comunidade literária da plataforma TikTok, tem vindo a transformar os hábitos de leitura. Incentivando desafios cada vez mais intensos, como a leitura de mais de 50 livros por mês e a viralização de títulos específicos, este fenómeno, impulsionado por criadores de conteúdo e algoritmos digitais, levanta preocupações entre leitores, que apontam para impactos na qualidade das obras, nomeadamente na repetição de fórmulas narrativas e na revisão editorial. 

    A influência das redes sociais na literatura é cada vez mais evidente. A plataforma TikTok tornou-se uma das maiores fontes de sugestões literárias para o público jovem, acumulando mais de 215 mil milhões de visualizações. Vídeos curtos, listas de recomendações e desafios de leitura moldam o comportamento dos utilizadores e a forma como consomem a literatura.  Hoje, as próprias livrarias, como a FNAC, exibem ativamente os títulos mais populares doTikTok (“fenómenos do BookTok), assistindo-se a um aumento significativo de vendas de livros físicos desde 2020. 

    A Perspectiva dos Leitores

    Para muitos leitores, esta visibilidade condiciona escolhas. Tamára Simão, conhecida pelas suas sugestões literárias online, considera: “Enquanto criadora de conteúdo, noto claramente que os livros mais populares geram mais atenção”, acrescentando que existe “indiretamente alguma pressão para acompanhar o que está em destaque”.  Também Catarina Barbosa, que mantém uma presença ativa na comunidade leitora online, reconhece este impacto: “Livros com mais ‘hype’ acabam por ser os mais pedidos para criarmos conteúdo”. Já Rita Viana, leitora ativa nas plataformas digitais, considera que essa pressão é sobretudo interna: “Sinto que muita gente sente a necessidade de estar ao mesmo “nível” das restantes pessoas.” Ariana Ramalhete, criadora de conteúdos centrados na literatura nas redes sociais, partilha uma experiência semelhante, marcada pela influência das tendências na escolha de leituras. 

    A forma como lemos influencia a forma como os livros são produzidos

    Este contexto contribui para um consumo mais acelerado por parte dos leitores, refletindo-se também na forma como os livros são produzidos. A prática de ler dezenas de livros por mês, muitas vezes associada a desafios virais, favorece leituras mais superficiais e uma menor retenção do conteúdo. A lógica do mercado editorial tende a acompanhar este ritmo, privilegiando a rapidez e a adaptação ao que está em destaque. “No mercado editorial, tal como em todos os mercados e empresas, o objetivo é vender. Se determinado livro resulta e vende bem, a tendência é repetir” explica Rita ao destacar a repetição de fórmulas entre obras populares. Tamára acrescenta:

    “É possível identificar padrões narrativos que se repetem, especialmente em géneros como o thriller ou romance contemporâneo”. 

    A aceleração do mercado levanta ainda questões ao nível da qualidade editorial. Catarina observa que, com a necessidade de acompanhar lançamentos internacionais “muitas editoras acabam por pecar em aspetos da revisão”, apontando a presença de erros ortográficos, de formatação e de tradução. Também Rita refere já ter encontrado “páginas mal assinaladas” e falhas que poderiam ter sido evitadas com maior cuidado. 

    O campo da tradução

    No campo da tradução, os desafios tornam-se ainda mais evidentes. Margarida Madeira, tradutora literária na Relógio d’ Água, sublinha a importância do seu papel enquanto mediadora cultural: “O tradutor escreveu as palavras todas que estão naquele livro. Existe, sem dúvida, um lado autoral na tradução”. No entanto, reconhece que é um trabalho muitas vezes invisível e pouco valorizado: “Em Portugal não temos muito a tradição de pôr os nomes dos tradutores nas capas.”

    As exigências do mercado podem comprometer este processo. Com prazos curtos para acompanhar tendências internacionais, algumas traduções são realizadas sob pressão: “Livros mais comerciais têm prazos mais apertados porque há pressa de os vender”, explica a tradutora, alertando para o impacto dessa urgência na qualidade final. Com a emergência de traduzir um livro, para que os leitores não recorram ao original, os prazos propostos podem ser inalcançáveis:

    “Eu já recebi propostas que recusei, de editoras que propunham prazos completamente absurdos e, quem quer que seja que aceitou aquele prazo, tem que ter feito um péssimo trabalho”, esclarece a mesma.

    Para os leitores, esta realidade pode traduzir-se em experiências negativas. Ariana recorda um caso concreto: “Há um livro bastante famoso nas redes que decidi ler em português, foi a pior experiência de sempre. Por pertencer a uma série, decidi ler em inglês o segundo. Tornou-se dos meus livros favoritos de todos.” 

    As diferentes perspectivas

    Apesar das críticas, os leitores não veem o fenómeno de forma unânime. Alguns destacam o lado positivo da democratização da leitura e da diversidade de oferta. “Há obras pensadas para entretenimento rápido e outras mais densas e reflexivas. O essencial é reconhecer essa diferença.” refere Tamára. Rita assinala os pontos positivos do aumento da oferta literária: “Felizmente os leitores são cada vez mais e todos temos gostos diferentes. As editoras devem apostar em livros diferentes e numa constante publicação.”

    Ainda assim, cresce a percepção de que o ritmo acelerado pode influenciar a forma como se lê. A necessidade de acompanhar tendências e consumir mais livros em menos tempo pode reduzir o envolvimento com as obras: “Por vezes, nem processamos bem a última leitura e já estamos com outro romance nas mãos”, frisa Tamára que reforça a efemeridade dos livros atuais. “Muitos dos livros atuais são pensados sobretudo para entretenimento imediato, e não necessariamente para perdurar.”

    Num mercado cada vez mais competitivo e influenciado pelo digital, o equilíbrio entre quantidade e qualidade surge como um dos principais desafios. Para alguns leitores e profissionais, a resposta poderá passar por abrandar o ritmo de consumo e valorizar o tempo dedicado à leitura, edição e tradução. 

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