No sábado, 28 de março, mais de 190 países apagaram a luz de monumentos e edifícios durante 60 minutos. Em Portugal, foram mais de 100 municípios a aderir. Mas vale um gesto simbólico para combater a crise climática?
Às 20h30 do passado sábado, 28 de março, começou um apagão voluntário e simultâneo em mais de 190 países. Da Torre Eiffel ao Coliseu de Roma, do Empire State Building à Ponte 25 de Abril, em Lisboa, monumentos icónicos de todo o mundo ficaram às escuras durante exatamente uma hora. Apelidada como Hora do Planeta esta iniciativa é um gesto simbólico que a organização ambientalista WWF (World Wide Fund For Nature) promove desde 2007, completando este ano duas décadas de mobilização global.

De Sydney para o mundo
Tudo começou na noite de 31 de março de 2007, na Austrália. A WWF e a agência publicitária Leo Burnett Sydney conceberam uma ideia simples: e se milhões de pessoas apagassem as luzes ao mesmo tempo, em sinal de preocupação com as alterações climáticas? A resposta superou todas as expectativas. Nessa primeira noite 2,2 milhões de pessoas e mais duas mil empresas em Sydney aderiram ao gesto. No ano seguinte, 35 países e grandes cidades como Banguecoque, Chicago, Copenhaga e Toronto já faziam parte do movimento.
Vinte anos depois, a Hora do Planeta é hoje a maior mobilização ambiental do planeta. Em 2026, envolveu mais de 190 países e territórios, representando 90% do globo, com milhões de cidadãos, empresas, instituições e governos a participar num gesto que, embora simbólico, procura ter um impacto real na consciência coletiva.
Portugal apaga a luz em mais de 100 municípios
Em Portugal, que aderiu pela primeira vez em 2008, a participação de 2026 foi a mais expressiva de sempre. Mais de 100 municípios, de norte a sul do país, apagaram ou reduziram a iluminação de edifícios públicos e monumentos entre as 20h30 e as 21h30. Entre os espaços que ficaram às escuras contam-se a Torre de Belém, o Castelo de São Jorge, o Mosteiro dos Jerónimos, as pontes 25 de Abril e do Freixo, e várias estações ferroviárias e Paços do Concelho.
No website da WWF Portugal encontram-se alguns testemunhos dos municípios e empresas que fizeram parte da iniciativa. Braga, município que participa há mais de 10 anos na Hora do Planeta refere que esta “constitui uma excelente chamada de atenção para aquilo que todos tomamos por garantido, que é a eletricidade. Só pensamos nela quando falta”. O município ainda acrescenta que:
“funciona como um abanão, mostrando como é essencial poupá-la, de forma a todos continuarmos a tê-la bem como à qualidade de vida que ela nos proporciona.”
Além disso, a adesão não se ficou pelas autarquias. Empresas como o El Corte Inglés, a Auchan, a Vulcano e a KPMG também participaram. Em Lisboa, o Centro Comercial Colombo reduziu a iluminação da sua praça central e acolheu a exposição fotográfica Lights Off, Nature on, patente até 3 de abril, que conta a história das duas décadas do movimento através de grandes painéis e cubos fotográficos.
Segundo testemunhos das empresas participantes KPMG e a Auchan, estas reforçam a crença na “construção de um futuro sustentável” que exige “ação coletiva e consistente (…) em prol do planeta”.
Um gesto simbólico que causa divergências sobre a sua relevância
A própria WWF nunca escondeu que a Hora do Planeta não foi concebida para gerar poupança energética direta. Sessenta minutos sem luz não compensam meses de consumo global. No Vietname, por exemplo, de acordo com a Companhia Nacional de Operação do Sistema Elétrico e Mercado de Eletricidade (NSMO), a edição de 2026 gerou uma redução estimada de 463.000 kWh, uma gota num oceano de consumo energético nacional do país. Estudos académicos apontam para quedas médias de cerca de 4% na procura de eletricidade durante o evento, um número relevante à escala local, mas marginal à escala global.
Porém, não faltam críticos. O termo slacktivism, uma fusão de preguiça com ativismo, surge regularmente associado à iniciativa. O argumento é que um gesto tão simples cria uma ilusão de participação que pode, paradoxalmente, reduzir a motivação para ações mais profundas e estruturais.
Os defensores do movimento respondem que o seu valor nunca foi energético, mas cultural e político.
“A Hora do Planeta não pretende poupar energia durante uma hora, pretende acender consciências”, afirma Ângela Morgado, diretora executiva da WWF.

Duas décadas, um balanço
Para assinalar o 20.º aniversário, vale a pena olhar para a evolução concreta nas duas décadas do movimento. No plano energético, os avanços são inegáveis: segundo o Boletim Eletricidade Renovável da APREN (Associação Portuguesa de Energias Renováveis) de novembro de 2025, entre janeiro e novembro Portugal gerou 75,1% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis, posicionando-se como o 4.º país da União Europeia com maior quota renovável, atrás da Noruega (97,7%), Dinamarca (88,4%) e Áustria (82,1%).
Além disso, segundo dados reportados pelos Estados-Membros da UE à Comissão Europeia em abril de 2025, o Mercado Regulado de Carbono (EU ETS), em funcionamento desde 2005, contribuiu para uma redução de aproximadamente 50% das emissões nos setores que abrange. Na biodiversidade, o exemplo do lince ibérico é paradigmático: de menos de 100 exemplares no início do século, a espécie chegou a 2024 com 2.401 animais recenseados na Península Ibérica, segundo o Censo do Lince-Ibérico 2024 coordenado pelo ICNF e entidades espanholas.
No plano global, a edição de 2026 trouxe também imagens que circularam nas redes sociais: a Porta de Brandemburgo, em Berlim, o Coliseu, em Roma, e a Sagrada Família, em Barcelona, mergulhados na escuridão. Momentos fotogénicos que, para muitos continuam a ser a principal força de um movimento que vive da sua capacidade de gerar conversas, nas ruas, nas escolas e nos parlamentos.



